sexta-feira, 22 de novembro de 2019

EU...

Eu...

Daniel Nobre Mendes, 78 anos, insólito desde que nasci,
chorão, mimado, enfadadiço, aprendiz de sonhos e maldosidades,
imoral, acrata, desumanizadamente humanista de feição insurrecta
e ternurenta, amigo e inimigo ao mesmo tempo, ruim poeta
endoidecido e afeito a descontextualizações e outras coisas, eu,
sou eu a tremer, febril, sou eu que me reconheço no meu bilhete de
identidade intransmissivel que não troco por nada- não sou
cambista, não tenho bancos nem agencias de classificação de
risco de crédito nem tenho preço de venda nem de compra nem
nada que me comprometa com a sociedade a não ser que me
encontro do lado de lá da trincheira para fazer um fogo continuado a
quem destroça, um fogo de lágrimas de artificio nesta fabulosa
pirotécnia que muitas vezes os meus olhos produz, cegamente, e
que se apega e apaga dentro de um oceano verde e fundo no
tutano do meu coração pois o fogo, o vento e a água sempre se
deram os braços dentro de mim e... eu sou também um fogo
desvairado e devorador, um vento bravio e agreste à solta, e uma
água prateada que completa quase todo o meu ser ondulante mas
finito.
Sempre fiz o fogo da e na guerra das ternuras e das
inclusões, sempre me debati pelo amor- ainda, não ainda, agora, já,
amo as crianças, as mulheres e os homens, os livros, a música, a
poesia, a liberdade e a luz como uma borboleta alada e rodopiante
á volta de todos os fogachos que me chamam para deles sorver o
alimento que me segura de pé como as árvores que, mesmo feitas
em carvão negro, não tombam mas ainda se renovam para voltar a
florir.
Daniel Nobre Mendes, 78 anos, casado há 43, pai muito
impertinente, mostrei ao filho os caminhos das escolhas a que não
foi alheia a minha amada, mostrei que a desobediência é sempre
preferivel aos cabrestos e que fazer silêncio é pactuar com as
injustiças ou delas vir a ser um comparsa passiva ou activamente
colaborante mas, claro, isto não se faz impunemente e tem um
preço elevadíssimo na maioria das vezes e principalmente quando
se vive em paises politicamente violentos e ditaturiais cujo braço é

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um elo de aço que se engancha com o torcionarismo religioso e
com a idiotia dos próceres, ensinei o amor do próximo, a destruição
de idolos, a procura incessante da verdade sem prejuizo de que a
maior parte das vezes só a dúvida sistemática pode conduzir à
verdade maior e mais completa, ensinei o desassossego interior
como uma serena maneira de procurar e ir mais além do que este
esmolambado presente indigno, indecoroso, onde a vigarice tem
eco e a desumanidade faz covil e sombra, ensinei o sorriso casto
das flores dependuradas nos cabelos loiros dos dias das crianças
buliçosas que brincam à beira dos lagos verdes e mansos, e,
sobretudo, mostrei o caminho esfusiante da luz, sim, dessa luz
rútila, luz que purifica e, ao purificar, abre dentro de nós novas
alamedas que conduzem a outros sóis mais brilhantes de que
ficamos mais ávidos ainda- ensinei como meta o infinito e como
caminho uma alameda larga, sem fim mas, claro, não se ensina
sem dor e não se aprende sem solidão, ensinar e aprender são dor
e solidão puras porque acabam por conduzir ao reconhecimento de
que só nos pertencemos a nós mesmos quer quando estejamos a
olhar para dentro da interioridade do nosso pensamento quer ainda
quando levantamos os olhos e verificamos que na paisagem
redonda se encontram os outros que amamos e lhes dizemos que
estamos aqui para eles e para o que der e vier- a solidão e a dor
são uma condição imposta a quem pretende ensinar e aprender
formas diferentes de estar aqui, desobediente e insirrecto e a quem
as assimila como nova forma de comportamento e acção e,
principalmente, quando se entendeu já que, nascer, existir e morrer
são outras formas de sofrimento e solidão com um sujeito nulo a
que os oligofrénicos se rendem, sim, a esse deus criador de nada
que afirmam que tudo é um castigo redentor- tolos, louvaminhas,
hipócritas, cinicos mas, irremediavente estúpidos ."As provas da
importância da estupidez nos assuntos humanos e da consequente
necessidade do seu cultivo são tão esmagadoras quanto as da
inadequação da inteligência num mundo que não foi feito à sua
medida", afirmou o professor Vítor Rodrigues. E muito mais gravoso
seja que "estamos tão estreitamente familiarizados com a estupidez
que já nem damos conta do grau em que se insinua nas nossas
vidas e as influencias que sobre nós se vão abatendo”. "O estúpido

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é alguém que, para resistir à inteligência, estreita a sua mente,
ignora informação, fecha-se em si mesmo. Retrai-se perante toda a
dilatação de horizontes induzida pela inteligência. A estupidez pode
ser parcelar ou generalizada a todo o aparelho psíquico,
espontânea ou cultivada, amplamente manifesta ou subtil",
denuncia aquele psicólogo.
A estupidez é o alicerce, a bandeira e a magnum opus das
sociedades da nossa hodiernidade.
A solidão e a dor são inerentes ao rosto daqueles que se
desalinham e se tornam centrifugos sempre que se extasiam ao
contemplar as girândolas do conhecimento!
Daniel Nobre Mendes, 78 anos, anarcohumanista sem pátria,
com toda esta familia humana de quase oito biliões, companheiro
das flores, dos vagabundos, das estrelas, da música e de tudo o
que é belo, amo as tempestades, os loucos, os depravados sem
moral que não seja aquela da não segregação porque para
segregado basto eu que não pertenço nem vou no rebanho nem
nunca permiti as palas nos olhos, essas viseiras opacamente
castrantes que jungem o olhar cego dos animais de tiro ao chão- eu
olho os longes, as borrascas torrenciais, as procelas frenéticas, eu
amo o tombar límpido dos dias alourados nos horizontes
afogueados de cores, eu sou tão natural como um floco de neve
pura ou como um diamantino suspiro de qualquer bebé suspenso e
acarihado pelos ternos afagos da sua mãe, ah! que ainda bem que
o instinto preservou a ternura e a criação culltural humana foi e é
mais poderosa erigindo a prumo a fabulosa noção de familia
universal sem fronteiras para lá das redutoras e facínoras atitudes
chauvinistas ideológicas dos tarados dos radicais holocaustos
alemão, da URSS, da China e por aí afora no corpo e na alma da
humanidade mais do assanhado e brutal neoliberalismo imperialista
neonazifacistacomunista insurgente dos nossos tempos, óptimo
observar que a familia existe e a flor continua a exalar clarões de
perfumes ensolarados, ah! ainda bem que existo e o observo com
olhos claramente lúcidos numa exaltação de júbilo e amor por tudo
a que um sopro súbtil explicável dá vida e luminosidade, sim,
luminosidade que não vem de outro lado a não ser das nossas

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próprias proteínas organizadas que excluem essa avantesma
sombria a que a sotaina negra apelidou de deus para que fossemos
todos broncos, submissos, decemente acarneirados para se poder
ter um prémio de consolação ou um castigo na eternidade- que
vigaristas, que pútridos abutres, ai, que suinicultura esta, a da
criação!
Daniel Nobre Mendes, 78 anos, estudioso inveterado, curioso
apaixonado, honesto, verdadeiro, não tolero injustiças, revolto-me e
bato-me com tudo e por tudo que diz respeito aos outros mas que
também é meu, abato-me, em bloco, como uma bomba destruidora
por sobre tudo o que a minha mira e pontaria emoldura e atinge, ah!
mas as minhas explosões são apenas cápsulas de flores embutidas
em ogivas de ternura abrangente que uma balistica de amor
tranversal faz transportar para todos os lugares onde qualquer ser
humano exista como eu, a minha violência é a compreensão de
tudo, ah! que desgraça, esta desgraça que é minha- eu sou apenas
a expressão cabal do reconhecimmento subjectivo de uma
magoada impotência objectiva de actuação que gerou todo o meu
revolucioarismo romântico de estar aqui a semear palavras na
alvura das minhas noites sem sono, impertubável ao alarido do
mundo julgando que assim é que se mudam as realidades e se
salvam as pessoas, ah! vileza esta que me devora, ah! hoje
morreram no Mediterrâneo europeu e civilizado dezenas de
perseguidos a fugir para cá e os Melo, os Álvaro, os Fernandes e
mais toda essa corja católica vetaram, escarraram e não salvaram,
ah! Daniel Nobre Mendes, lúcido, culto, rebelde, olha, és um in
carnare do suplício de Tãntalo que a cultura pariu precisamente
neste mesmo Meiterrâneo e por isso nem bebes a água fresca da
tua secura nem comes os frutos amadurados da tua fome, olha, vou
à merda...
Daniel Nobre Mendes, 78 anos, insubmisso, provocador e
vaidoso quanto basta quando perto dos poderosos, humilimo
quando estou abraçado aos simples, nunca indiferente seja ao que
for, atiro-me à crista da onda gigante e inundo, derrubo, destruo,
sim, destruo como a falha tectónica de San Andreas prestes a
provocar uma monumental mortandade californeana de vulto, está

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previsto pelos sismólogos, destemido, enfrentei e pego pelos cornos
afiados as feras reais à minha beira ou as imaginárias que
constantemente me vendem o que não corresponde ao mundo das
realidades que o atravessam, atravessando-me, sim, os politicos, os
sindicalistas, os acivistas, a chamada comunnicação social, os
religiosos, toda a escória, todos os escroques que vendem
inverdades, traficam falsidades lucrativas, barrigas prenhas, bocas
comilonas, estômagos insaciáveis, tripas que fedem, enriquecem e
teimam em embrutecer os dias da minha vivência mas não
conseguem porque sou uma fúria indomável beijada pelas flores
multicoloridas do meu pensamento- e isso é só o que tenho e posso
e quero oferecer a toda a gente porque é o lidímo produto bordado
a ouro na sagrada bandeira da minha liberdade mental de recusa e
de escolha e eu escolhi pensar para poder conceber, ser
confrontado e confrontar, escolhi não ser escravizado, escolhi não
ser colonizado, escolhi a minha criação, optei por estar sozinho mas
ser inteiro com os outros, com os que cá estão já e com aqueles
que hão-de chegar amanhã, escolhi a não servidão e enforquei
todas as hipotecas- não contem comigo nem para aceitar ou fazer
propagandas reles de caça votos como os caciques e trauliteiros da
ordem estabelecida nem com bom-mocismos pregadores de
limpidezes partidárias nem com quaisquer outras crededitações
malabares que possam promover todas as formas de aberração
oficial ou não, cultural, politica, social, religiosa e tudo mas tudo em
que não cravo o sinete em brasa do desconchavo- não existo para
isso, ouviram, seus intrujões, não contem comigo, ouviram bem,
seus polichinelos esfarrapados do circo das feras?
Daniel Nobre Mendes, 78 anos, vou pelo sonho, vou pelo
perigo, um perigo de abraços e beijos, um perigo contagiante,
pandémico, vou sim, vou pela glória de saber que tenho oito mil
milhões de seres humanos à minha espera, sim, vou ao seu
encontro, meus irmãos e....encontrar-nos-emos para fazer a festa
da vida no futuro mas ainda não sei como, onde e quando esse dia
me sorri nas palmas das mãos abertas como girassóis, por vocação
concebida e criada, os Doze girassóis numa jarra, do pintor
holandès apátrida Vincent van Gohg, como realidade viva da luz e
da cor derramadas!